Com a chegada de junho, o clima das festas juninas invade o Nordeste com cores, música, comidas típicas e muita tradição. Em Parnamirim, os festejos movimentam bairros inteiros, aquecem a cultura local e fortalecem os laços comunitários. Mas, entre bandeirinhas e forró, há um hábito que tem causado cada vez mais preocupação na população, principalmente entre os mais afetados: o uso de fogos de artifício com estampido.
Os rojões e bombas, comuns nessa época do ano, produzem sons que ultrapassam os 120 decibéis — mais do que um motor de avião durante a decolagem. Para quem solta, pode parecer apenas um sinal de celebração. Mas para muitos, o barulho representa medo, estresse e, em casos mais graves, danos físicos e emocionais. Os grupos mais afetados por esses ruídos são justamente os mais vulneráveis: idosos, crianças, pessoas com autismo e animais domésticos.
Crianças pequenas, principalmente as que possuem alguma sensibilidade auditiva ou neurológica, podem ter crises de choro, ansiedade e até distúrbios no sono. Os idosos, por sua vez, enfrentam riscos sérios, como elevação da pressão arterial, taquicardias e sustos que podem resultar em quedas ou emergências cardíacas. Já as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) muitas vezes entram em colapso diante de barulhos altos e inesperados, desencadeando episódios de desorganização sensorial, pânico e isolamento.
Além dos seres humanos, os animais domésticos também sofrem — e muito. Cães e gatos possuem uma audição extremamente sensível e, por isso, o som dos fogos é interpretado por eles como uma ameaça real. Muitos entram em estado de desespero, fogem, se machucam ou têm ataques cardíacos. Em clínicas veterinárias, o aumento de atendimentos durante os festejos juninos é uma realidade.
E não é só o barulho. Os fogos de artifício são, todos os anos, responsáveis por dezenas de acidentes graves em todo o país. Queimaduras, amputações e lesões oculares são recorrentes, principalmente entre crianças que manuseiam os artefatos sem supervisão ou instrução adequada. Dados de hospitais apontam que mais de 80% dos acidentes com fogos envolvem menores de idade.
Apesar desses riscos, ainda há resistência por parte da população em abrir mão dessa prática. Muitos a veem como parte da tradição nordestina, mas especialistas alertam que é possível manter o espírito junino com alternativas mais seguras e inclusivas. Fogos silenciosos, por exemplo, garantem o espetáculo visual sem o estrondo que afeta os mais sensíveis. Espetáculos com luzes e drones, cada vez mais populares, também têm substituído com sucesso os fogos tradicionais em diversas cidades brasileiras.
A mudança de hábitos começa pela conscientização. É preciso que cada cidadão entenda que a diversão de uns não pode ser construída sobre o sofrimento de outros. Pensar no próximo, no bebê que acorda assustado, no idoso que passa mal, no animal que foge, é um gesto simples, mas que faz toda a diferença.
Neste São João, a tradição pode — e deve — continuar viva. Mas que seja com empatia, respeito e responsabilidade. Porque festa de verdade não precisa machucar ninguém.
Foto: reprodução Google fotos
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